domingo, 24 de setembro de 2017

Aquele episodio de Rick And Morty me fez pensar na logica da estrutura economica vigente. No final do episodio um planeta é devastado por causa dos protagonistas. Um dos moradores desse planeta diz: "agora teremos que construir tudo do zero". Rick então fala: "é simples: vejam o que voces precisam e façam". Um outro personagem morador do planeta em seguida: "eu preciso de pão, estou com fome". Um outro, com um pão na mão diz: "eu tenho um pão, mas não pra todo, mundo", "você pode fabricar mais pão", "mas quem vai cuidar dos meus filhos?", "eu cuido, mas em troca de pãos extras". Enfim, não lembro muito bem como eram os diálogos, o importante é que eles foram escritos tendo em mente a lógica de uma economia de mercado, em que serviços e produtos são servidos em troca de outro serviços e produtos. O dinheiro fica de fora neste exemplo, mas é só pensar que ele é apenas um intermediário e que, em última análise, nós trabalhamos não por dinheiro mas por pão e por ter quem cuide dos nossos filhos.

Daí eu fiquei pensando. Na atualidade da nossa estrutura econômica, nós não trabalhamos diretamente para oferecer um serviço ou produto, nós trabalhamos para uma outra pessoa, para que ela possa servir serviços ou produtos. Não são pessoas físicas, são pessoas jurídicas. São as empresas. Quem oferece o produto ou o serviço é a empresa, e nós oferecemos nosso "serviço" para elas, em troca de dinheiro, para comprarmos outros produtos e serviços.

Pensei em uma outra coisa. Nós apenas oferecemos um único produto ou serviço, ou pelo menos uma gama muito reduzida deles em comparação com todos os outros produtos ou serviços que usufruimos. Isso me fez pensar que a divisão do trabalho na atual estrutura economica é muito parecida com a própria lógica da democracia representativa, no sentido de que, enquanto na primeira nosso trabalho é focado num ângulo agudo de tarefas, na segunda votamos apenas em um candidato para cada cargo; equanto em uma nossa força de trabalho não é insubstituível e quase insignificante, no outro também - nosso voto é insignificante perto da quantidade total de votos em uma eleição.

Depois disso pensei na ideia de alienação. Quer dizer estamos alienados do nosso trabalho tanto quanto somos da coisa pública - digo, da institucionalidade pública, do Estado. A coisa que produzimos não nos pertence e nós não a fazemos de maneira totalmente engajada, há apenas a venda da nossa força de trabalho. É muito diferente você fazer a contabilidade das despesas da sua casa tendo em vista todas as suas necessidades e todo o valor sentimental em relação ao seu lar e à sua familia e fazer a contabilidade de uma empresa, levando em consideração todas os critérios que irão agradar o seu chefe e todos àqueles que irão facilitar o workflow do trabalho. Quer dizer, enquanto o trabalho autônomo, para si mesmo, nos engaja e serve a um próposito último, o trabalho assalariado é desengajante e intermediário, pois não é último, serve a um fluxo de trabalho.

Por mais que não pensemos nesses aspectos da alienação econômica e do trabalho eles nos afetam na medida em que são REAIS. Quer dizer. Até que ponto a percepção de insignificância (mesmo sem a racionalização dessa percepção) diante do mercado de trabalho e da estrutura política não nos causa ansiedade e medo e prejudica nossa auto-estima?

Imagine viver em um sítio com plantação de verduras diversas, um galinheiro, painel solar, uma casa, tendo conhecimento de marcenaria, permacultura, elétrica e eletrônica, cozinha e cuidados medicinais básicos. Imagine essa vida totalmente engajada e autônoma, livre da alienação econômica e política. Penso ser essa a utopia que podemos alcançar. A localidade e a autonomia são fatores essenciais de emancipação política. É só pensar na ética da maioria das tribos indígenas como mostrada no texto "A Sociedade Contra O Estado" de Pierre Clastres em que ele discute a ideia de que as ditas sociedades primitivas não são sociedades sem Estados mas sociedades contra o Estado, na medida em que abominam a noção de propriedade privada e poder coercitivo. São sociedades autônomas, que se resolvem autonomamente. Ao contrario da nossa sociedade, onde a economia funciona de maneira que os trabalhadores exercem monoatividades para, em troca, receber o resultados de multiatividades, nessas sociedades exerce-se (a despeito da divisão de tarefas), multiatividades, em troca delas mesmas. É a autonomia como forma de emancipação política e criação de sentido na vida. Ter a consciência de ser dispensável e inútil enquanto vive no meio da massa intimidadora, com medo da polícia, do trânsito e das pessoas em geral não é o tipo de vida que considero o mais ético e saudável para nossos corpos e mentes.

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