domingo, 24 de setembro de 2017
Estou pensando aqui sobre uma lógica que, em graus diferentes, move as nossas vidas. Existe uma lógica, apoiada em uma retórica na nossa cultura, que é a da culpa. Uma ideia meio nebulosa que, apoiada na ignorância e no medo que ela gera, nos faz, guiados por nossos sentimentos mais angustiantes, tomar decisões irracionais. Parece que a vaidade reina. Existe uma barreira comunicacional entre as pessoas que impede que qualquer coisa que não seja baseada nessa retórica, que também engloba a lógica do sofrimento como sendo algo bom (se sentir mal para merecer alguma coisa), possa ser compreendida por alguém. Isso é o que eu chamo de ideologia. Segundo o que eu penso (não o que eu leio, nunca li sobre esse conceito), e entendi de umas aulas de filosofia no ensino médio, ideologias não são apenas as anunciadas. O termo designa qualquer estrutura de pensamento cristalizada, sendo necessária uma postura constante de auto-critica e racionalização para quebrá-la. Ou seja todos somos, em certa medida, ideólogos. É preciso encarar isso e driblar este problema. Mas não apenas ideólogos, somos medrosos, apegados e vaidosos. Tudo porque somos ignorantes. Mas olha que louco: a ignorância é uma escolha. E é preciso coragem para deixar de ser ignorante. É uma tentativa constante. Ah, e o que Spinoza chama de consciência (uma coisa muito próxima ao "hábito" que dá conta de lidar com os afetos) seria um pouco o que chamo de ideologia. Um acadêmico teria asco do que eu escrevo aqui. Mas aprendi que mais importante que discutir pensamentos e pensadores é pensar com a própria cabeça. A equação é simples: herdeiros de uma cultura falida e mergulhados em "afetos" que nos são destrutivos; nunca tendo vislumbrado outras possibilidades, e bombardeados por ideologias que nos dizem que o mundo é uma bosta porque esse é o melhor jeito que as coisas poderiam ser, nos vemos viciados num direcionamento que só sabe dar conta da angústia e da ignorância. É preciso desapego dessas coisas que nos fazem mal. E é preciso calma. Pensa bem quem pensa com calma. O erro é filho da ansiedade.
Aquele episodio de Rick And Morty me fez pensar na logica da estrutura economica vigente. No final do episodio um planeta é devastado por causa dos protagonistas. Um dos moradores desse planeta diz: "agora teremos que construir tudo do zero". Rick então fala: "é simples: vejam o que voces precisam e façam". Um outro personagem morador do planeta em seguida: "eu preciso de pão, estou com fome". Um outro, com um pão na mão diz: "eu tenho um pão, mas não pra todo, mundo", "você pode fabricar mais pão", "mas quem vai cuidar dos meus filhos?", "eu cuido, mas em troca de pãos extras". Enfim, não lembro muito bem como eram os diálogos, o importante é que eles foram escritos tendo em mente a lógica de uma economia de mercado, em que serviços e produtos são servidos em troca de outro serviços e produtos. O dinheiro fica de fora neste exemplo, mas é só pensar que ele é apenas um intermediário e que, em última análise, nós trabalhamos não por dinheiro mas por pão e por ter quem cuide dos nossos filhos.
Daí eu fiquei pensando. Na atualidade da nossa estrutura econômica, nós não trabalhamos diretamente para oferecer um serviço ou produto, nós trabalhamos para uma outra pessoa, para que ela possa servir serviços ou produtos. Não são pessoas físicas, são pessoas jurídicas. São as empresas. Quem oferece o produto ou o serviço é a empresa, e nós oferecemos nosso "serviço" para elas, em troca de dinheiro, para comprarmos outros produtos e serviços.
Pensei em uma outra coisa. Nós apenas oferecemos um único produto ou serviço, ou pelo menos uma gama muito reduzida deles em comparação com todos os outros produtos ou serviços que usufruimos. Isso me fez pensar que a divisão do trabalho na atual estrutura economica é muito parecida com a própria lógica da democracia representativa, no sentido de que, enquanto na primeira nosso trabalho é focado num ângulo agudo de tarefas, na segunda votamos apenas em um candidato para cada cargo; equanto em uma nossa força de trabalho não é insubstituível e quase insignificante, no outro também - nosso voto é insignificante perto da quantidade total de votos em uma eleição.
Depois disso pensei na ideia de alienação. Quer dizer estamos alienados do nosso trabalho tanto quanto somos da coisa pública - digo, da institucionalidade pública, do Estado. A coisa que produzimos não nos pertence e nós não a fazemos de maneira totalmente engajada, há apenas a venda da nossa força de trabalho. É muito diferente você fazer a contabilidade das despesas da sua casa tendo em vista todas as suas necessidades e todo o valor sentimental em relação ao seu lar e à sua familia e fazer a contabilidade de uma empresa, levando em consideração todas os critérios que irão agradar o seu chefe e todos àqueles que irão facilitar o workflow do trabalho. Quer dizer, enquanto o trabalho autônomo, para si mesmo, nos engaja e serve a um próposito último, o trabalho assalariado é desengajante e intermediário, pois não é último, serve a um fluxo de trabalho.
Por mais que não pensemos nesses aspectos da alienação econômica e do trabalho eles nos afetam na medida em que são REAIS. Quer dizer. Até que ponto a percepção de insignificância (mesmo sem a racionalização dessa percepção) diante do mercado de trabalho e da estrutura política não nos causa ansiedade e medo e prejudica nossa auto-estima?
Imagine viver em um sítio com plantação de verduras diversas, um galinheiro, painel solar, uma casa, tendo conhecimento de marcenaria, permacultura, elétrica e eletrônica, cozinha e cuidados medicinais básicos. Imagine essa vida totalmente engajada e autônoma, livre da alienação econômica e política. Penso ser essa a utopia que podemos alcançar. A localidade e a autonomia são fatores essenciais de emancipação política. É só pensar na ética da maioria das tribos indígenas como mostrada no texto "A Sociedade Contra O Estado" de Pierre Clastres em que ele discute a ideia de que as ditas sociedades primitivas não são sociedades sem Estados mas sociedades contra o Estado, na medida em que abominam a noção de propriedade privada e poder coercitivo. São sociedades autônomas, que se resolvem autonomamente. Ao contrario da nossa sociedade, onde a economia funciona de maneira que os trabalhadores exercem monoatividades para, em troca, receber o resultados de multiatividades, nessas sociedades exerce-se (a despeito da divisão de tarefas), multiatividades, em troca delas mesmas. É a autonomia como forma de emancipação política e criação de sentido na vida. Ter a consciência de ser dispensável e inútil enquanto vive no meio da massa intimidadora, com medo da polícia, do trânsito e das pessoas em geral não é o tipo de vida que considero o mais ético e saudável para nossos corpos e mentes.
Daí eu fiquei pensando. Na atualidade da nossa estrutura econômica, nós não trabalhamos diretamente para oferecer um serviço ou produto, nós trabalhamos para uma outra pessoa, para que ela possa servir serviços ou produtos. Não são pessoas físicas, são pessoas jurídicas. São as empresas. Quem oferece o produto ou o serviço é a empresa, e nós oferecemos nosso "serviço" para elas, em troca de dinheiro, para comprarmos outros produtos e serviços.
Pensei em uma outra coisa. Nós apenas oferecemos um único produto ou serviço, ou pelo menos uma gama muito reduzida deles em comparação com todos os outros produtos ou serviços que usufruimos. Isso me fez pensar que a divisão do trabalho na atual estrutura economica é muito parecida com a própria lógica da democracia representativa, no sentido de que, enquanto na primeira nosso trabalho é focado num ângulo agudo de tarefas, na segunda votamos apenas em um candidato para cada cargo; equanto em uma nossa força de trabalho não é insubstituível e quase insignificante, no outro também - nosso voto é insignificante perto da quantidade total de votos em uma eleição.
Depois disso pensei na ideia de alienação. Quer dizer estamos alienados do nosso trabalho tanto quanto somos da coisa pública - digo, da institucionalidade pública, do Estado. A coisa que produzimos não nos pertence e nós não a fazemos de maneira totalmente engajada, há apenas a venda da nossa força de trabalho. É muito diferente você fazer a contabilidade das despesas da sua casa tendo em vista todas as suas necessidades e todo o valor sentimental em relação ao seu lar e à sua familia e fazer a contabilidade de uma empresa, levando em consideração todas os critérios que irão agradar o seu chefe e todos àqueles que irão facilitar o workflow do trabalho. Quer dizer, enquanto o trabalho autônomo, para si mesmo, nos engaja e serve a um próposito último, o trabalho assalariado é desengajante e intermediário, pois não é último, serve a um fluxo de trabalho.
Por mais que não pensemos nesses aspectos da alienação econômica e do trabalho eles nos afetam na medida em que são REAIS. Quer dizer. Até que ponto a percepção de insignificância (mesmo sem a racionalização dessa percepção) diante do mercado de trabalho e da estrutura política não nos causa ansiedade e medo e prejudica nossa auto-estima?
Imagine viver em um sítio com plantação de verduras diversas, um galinheiro, painel solar, uma casa, tendo conhecimento de marcenaria, permacultura, elétrica e eletrônica, cozinha e cuidados medicinais básicos. Imagine essa vida totalmente engajada e autônoma, livre da alienação econômica e política. Penso ser essa a utopia que podemos alcançar. A localidade e a autonomia são fatores essenciais de emancipação política. É só pensar na ética da maioria das tribos indígenas como mostrada no texto "A Sociedade Contra O Estado" de Pierre Clastres em que ele discute a ideia de que as ditas sociedades primitivas não são sociedades sem Estados mas sociedades contra o Estado, na medida em que abominam a noção de propriedade privada e poder coercitivo. São sociedades autônomas, que se resolvem autonomamente. Ao contrario da nossa sociedade, onde a economia funciona de maneira que os trabalhadores exercem monoatividades para, em troca, receber o resultados de multiatividades, nessas sociedades exerce-se (a despeito da divisão de tarefas), multiatividades, em troca delas mesmas. É a autonomia como forma de emancipação política e criação de sentido na vida. Ter a consciência de ser dispensável e inútil enquanto vive no meio da massa intimidadora, com medo da polícia, do trânsito e das pessoas em geral não é o tipo de vida que considero o mais ético e saudável para nossos corpos e mentes.
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