sábado, 29 de agosto de 2015
Agora eu tô com essa neura de querer ter um grande repertório cultural, de modo que não consigo mais ouvir uma música, ver um filme, ler algo, sem que considere a pertinência desse "consumo". Fico prestando atenção no meu déficit de atenção, meu analfabetismo funcional, na minha baixa capacidade cognitiva, e como isso afeta no meu objetivo final de ser alguém com grande conhecimento e bem articulado. Isso dialoga diretamente com as minhas dúvidas em relação ao meu sucesso que não sei se obterei na profissão que me espera com a faculdade que escolhi. Começo a não mais ser tocado pelas artes, sobretudo música. Tudo vira uma obrigação pra um objetivo egoísta. Não consigo ouvir com o mesmo feeling as músicas que gosto, nem ler assuntos que me interessam, e nem me apaixonar por artistas novos. Talvez esteja melhorando em outros aspectos (seria uma evolução do tipo: mais triste porém mais forte), mas também não tenho certeza. Talvez esteja me "aculturando", assimilando comportamentos padrão como não consegui antes e, como não sou tão forte como pessoas que admiro, o meu estado natural (como alguém que partilha o mínimo dos valores dessa sociedade) seja a mediocridade espiritual. Talvez esteja mesmo envelhecendo: menos vaidade, mais disposição, menos energia e mais tristeza.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Meu pai dentro da minha cabeça nunca está satisfeito. Tudo o que eu faço está errado. Na verdade, ele se adianta tanto que já antevê o meu erro. Meu pecado então se torna o meu simples ser. Em cada pensamento e emoção deveria, na verdade, me adequar a outra coisa. Trata-se portanto de uma culpa imperdoável, um eterno arrependimento antes do ocorrido. Trata-se de sempre se jugar errado e achar que escolheu a opção não correta. Mas, mais do que isso, trata-se da subjugação do pensamento e do corpo. A indisposição é efeito natural dessa paranoia anti autocompaixão.
domingo, 2 de agosto de 2015
Sobre aprendizado e o sentido da vida
To sentindo aquela angústia. Aquela velha angústia...
Aquela que vem acompanhada com a falta de sentido na vida, com a minha dificuldade em assimilar a minha cultura.
Obs: Não consigo ser totalmente sincero nessas minhas conversas a sós comigo mesmo, fico emulando julgamentos alheios na minha cabeça, imaginando alguém escutando meus pensamentos, ou lendo isso posteriormente. Mas me esforço pra isso não me atrapalhar o raciocínio.
Como dizia, não consigo assimilar muito bem as coisas da minha cultura. Por exemplo, nunca namorei - é claro que existem outros motivos pra isso, relacionados com problemas de sociabilidade meus. Isso por que nunca vi sentido em namorar, digo, nunca vi sentido no namoro enquanto prenúncio do casamento, o que nada mais é que mais uma instituição a oprimir os seres humanos. Nunca me dei bem com autoridades e regras arbitrárias (não que eu me rebele, mas me causa grande desconforto). O namoro pra mim nada mais é que um compromisso (não é assim que muitos o chamam?), e não me dou muito bem com compromissos, nem com regras, nem com a sensação de dever explicações para alguém. Se tem algo que odeio é dar explicações para alguém, como uma obrigação.
Outra coisa que nunca me desceu foi essa ideia de que o trabalho dignifica o homem. Sei que sou apenas um rapaz jovem, que é sustentado pelos pais, que inclusive lhe pagam a faculdade, e que de repente não tenho nenhum autoridade para falar sobre isso por que simplesmente não sou maduro o suficiente. Acontece que eu quero que se foda, sei que isso não passa de uma ilusão, todos temos o direito de falar o que bem achamos do mundo, e aquilo que nos incomoda. Minha opinião é: isso é ideologia de classe dominante impregnada no senso comum. As duas experiencias de trabalho que eu tive, ambas baseadas em contrato com tempo estipulado de atividade, sai antes do tempo. Na primeira vez era menor aprendiz, trabalha numa empresa de taxi-aéreo, meio-período, e às sextas-feiras ia a um curso de capacitação profissional. No segundo, trabalhei durante quase três meses como auxiliar-administrativo na Saraiva, editora. Já na minha primeira experiência experimentei uma total aversão ao ambiente de escritório, com todas aquelas pessoas preconceituosas, soberbas, ignorantes. Aquilo não fazia sentido pra mim, era uma empresa que ajudava na manutenção de privilégios daquela camada social que tem privilégios, os mais ricos. Aquilo simplesmente ia contra a visão de mundo que eu estava começando a ter. Como vou dedicar parte integral do meu dia à uma atividade que não me pertence, e que pior, tratava de mimar uma classe média alta, ricos e empresários? Pois tinha a promessa de que, se eu continuasse até o término do contrato, poderia ser promovido, mas aquilo já me dava angústia, sai antes de completar um ano. Já na Saraiva, eu me dei de cara com uma jornada de 9 horas de trabalho diárias, exercendo uma atividade repetitiva sob um stress considerável, afinal tratava-se de um período de atrasos nas entregas dos livros às escolas. Os diretores dos colégios ligavam estressadérrimos e na maioria das vezes não tínhamos respostas de previsão, ou quando dávamos alguma posição era a de que iria demorar mais. Os valores e os preconceitos me incomodaram mais uma vez, e agora ainda tinha o fato do stress - meus colegas sempre faltavam para ir ao médico, pelo menos toda semana duas pessoas faltavam - e a tal da hierarquia, fora o salário que não parecia ser o suficiente como indenização da minha saúde mental e auto estima que estavam cada vez mais precárias. Sai quinze dias antes do previsto e passei a me dedicar somente a faculdade, cujas aulas começaram quase juntas com o primeiro dia na empresa.
Evito bastante pensar no futuro, tenho medo. Mas o que mais me assusta é a falta de sentido na vida, o que me assusta de verdade é levar uma vida rodeado de pessoas que não me fazem bem, dentro de ambientes que me incomodam, fazendo coisas sem sentido pra agradar pessoas que dizem que me amam, e ter prazeres temporários a fim de anestesiar a dor do peito, da angústia. Daí eu vejo esses seres iluminados, que trazem a tona aquelas verdades incontestáveis, que todos trazemos escondidas de baixo do peito. Falam o óbvio, e eu me motivo, por que percebo a sinceridade e a sobriedade. "Aprender é mais urgente que armazenar informações, objetivos e pontos finais importam menos, quando se percebe a vida como um processo as velhas distinções entre derrota e vitória, sucesso e fracasso, desaparecem": essa provocação que vi num fanzine me tocou bastante. Sempre me vejo parado, esterilizado, limitado, por minhas vaidades, por minhas angústias. Seria hora de voltar à realidade e fazer o que tem de ser feito. Aprender é mais urgente que armazenar informações. Tenho que parar de me projetar adiante, num ponto onde nunca chegarei. Nunca serei um intelectual, conhecedor de tudo. Devo ser lento e atento ao que me rodeia. Se projetar onde não se alcança não é nem sonhar, é só devaneio, deve-se, antes, ter orgulho de si próprio, nutrir-se daquele amor próprio que nasce junto da gente e vai se perdendo ao longo do tempo, parar de se odiar, de emular julgamentos alheios, juntando tudo de mais terrível que ouvimos por ai, e nos machucar. Não maltratar meu coração, me respeitar, e me rodear de pessoas boas, que tem a acrescentar nessa minha jornada, pois se o sentido da vida é aprender, coisa que não deixamos de fazer um só dia, então devo me focar nisso e tirar o máximo proveito.
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