sexta-feira, 18 de maio de 2018

O mal humor, a vaidade, a despotencialização

Existe um jeito de enxergar as coisas que tem haver com a postura incômoda dos mal-humorados. Esse jeito de enxergar as coisas é mais ou menos assim. Vê-se o outro como algo implacável em sua beleza e força. Daí, olhando para si mesmo e se lamentando de não ter nascido forte ou belo, adota-se uma postura dupla: uma auto-depreciação no sentido de se rejeitar, numa despotencialização, numa degradação, e ao mesmo tempo um orgulho dessa força externa que se prova sempre superior. Daí os gostos, os desejos, as vaidades, que sempre vão em direção ao que não é, o que não está. Está sempre incomodado, como se o mundo não fosse perfeito e, não sendo perfeito, não é merecedor do prazer em se viver. Como se essa imperfeição (temporária nesse raciocínio) fosse dar lugar, mais cedo ou mais tarde, à perfeição que traz a promessa de redimir as coisas. Mas essa promessa nunca se concretiza. As coisas sempre estão por fazer, por se concretizar. Não há perfeição no outro. A comparação é uma ilusão, uma projeção platônica das energias internas que não se resolvem devido à repressão. É precisa praticar a empatia com inteligencia, pois é a  própria empatia que nos faz sentir uma ofensa, ou uma rejeição. É justamente porque eu consigo me colocar no lugar do outro que sinto a ofensa tirar uma força de mim, me decompor. É preciso não sentir empatia para com os algozes. Não há algozes, todo o conflito acontece na mente. A vaidade é sempre uma projeção, uma tentativa de se colocar no lugar do outro. A verdadeira empatia não tem a ver com se colocar no lugar do outro, tem a ver com a maturidade de entender que o outro, em alguma medida, sou eu - não por uma identificação narcísica, mas por uma sensatez da convivência, da sobrevivência.

sábado, 5 de maio de 2018

Sobre a culpa e a incomunicabilidade

O grande sentimento. O sentimento final é o da paralisia. A paralisia é a culpa. A culpa é a condenação, a pena ordinária de todos os dias. O convívio é baseado na lógica da pena, onde sua expressão principal é o moralismo. Eu tenho aversão ao moralismo como tenho da pena. Meu silencio diante do moralismo é em forma de protesto. Daí meu silencio em geral. A linguagem violenta do cotidiano é a linguagem moralista. Nos orgulhamos de cumprirmos pena a nós mesmo todos os dias na nossa vaidade derrotista.